Calendário Ipiranga

1998
Texto do cabeçalho do calendário:
Casos do Romualdo - Contos de João Simões Lopes Neto (1865-1916) - respeitada a grafia original.

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Título: Tetéia
Dimensões:
46cm x 24cm (publicado)
Ano / meses:
1998 / janeiro-fevereiro-março
Técnica:
gouache
Texto/Observações:
Adaptação de texto e ilustrações Berega:

Uma manhã saí a caçar perdizes e levei a TETÉIA.
Mal entramos no macegal a TETÉIA amarrou, toquei-lhe com o joelho na anca, ela andou uns passous: a perdiz levantou-se no vôo e flechou!
Pum! Tiro dado, perdiz em terra, a Tetéia trazendo.
E assim foram-se cem cartuchos que eu trazia; Cem perdizes em meia hora.
Sentei-me e comecei a atar as perdizes e, distraído, esquecime de chamar a perdigueira. E, quando tudo pronto, ia marchar, só então lembrei-me da cachorra.
Chamei: Tetéia! Tetéia! E nada de resposta.
Com outras distrações e afazeres, passou o tempo, de vez em quando e sempre com pesar e saudade lembrava-me da desaparecida. Tetéia.

Dediquei-me então a ensinar um cachorrinho filho dela, o seu retrato escrito. Há dias - levei o cachorrinho ao campo, para exercício e sem dar por tal, fui dar no lugar daquela mal fadada caçada em que se sumiu minha maravilhosa perdigueira. E, eis senão quando, o cachorrinho pára, amarra, levanta a pata, sacundindo o rabo! Chego-me, toco-lhe com o joelho e quando espero que o Totó vá levantar a perdiz, ele volta-se para mim desarrumado, humilde, com os olhos arrasados de lágrimas.
Surpreso, estiquei o pescoço e vi:
Vi, sim, o esqueleto da Tetéia ainda de coleira, firme correta, na posição de amarrar; adiante, um esqueleto de perdiz, na posição de preparar o vôo. Cousa notável, foi ainda o faro filial que guiou o cachorrinho e fê-lo descobrir e chorar perante os ossos da mãe!

 

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Título: A Morte do Gemada
Dimensões do Original:
46cm x 24cm (publicado)
Ano / meses:
1998 / abril-maio-junho
Técnica:
gouache
Texto/Observações:
Adaptação de texto e ilustrações Berega:

Andávamos numa caçada de tatús.
Achando o tatú, cava-se um pouco, até descobrir a cola e então, com uma embira ou cipó, amarra-se na dita cola uma estaca, formando-se uma cruz e pronto, larga-se. O tatú procura cavar para diante, mas não avança que a cruz no rabo, ficando atravessada na boca da toca.
Pois no dia, não tendo à mão uma estaca e para não perder tempo, amarrei pelo rabo um enorme tatú ao cabresto do meu estimado cavalo baio, o Gemada.
O tal tatú foi cavando, cavando, cavando, entrando terra adentro: o cavalo, muito dócil, sentindo-se puxado, cedendo e foi indo.
A boca da toca era grande. O Gemada, muito manso, meteu o focinho, a cabeça, lá dentro; o tatú puxou mais e o cavalo cedeu. Quando não pode ceder mais, e justamente por isso, o tatú fez aianda mais fica pé. Quem é caçador sabe que força tem no rabo do tatú. Travou-se por certo luta renhida: o cavalo puxando para fora e o tatú para dentro.
Quando voltei ao lugar encontrei o meu Gemada sufocado, asfixiado, morto, com a cabeça como uma rolha metido no gargalo da toca! E ainda perdi o cabresto.
Quase um ano depois, vim a pegar aquele mesmíssimo tatú, que conheci porque ainda trazia de arrasto o dito cabresto apenas com argolas mui gastas de roçarem no chão.

 

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Título: Três Cobras
Dimensões do Original:
46cm x 24cm (publicado)
Ano / meses:
1998 / julho-agosto-setembro
Técnica:
gouache
Texto/Observações:
Adaptação de texto e ilustrações Berega:

(Resumo)
Fazia um frio de rachar pedras.
Acendeu-se uma grande fogueira e cada um tratou de chamuscar seu pedaço de carne>
Eu saí a procurar um espeto para meu assadinho. Encontrei um pedaço de pau tal e qual como eu queria, duma 1/2 braça, grossinho, liso, e o que mais, já com a ponta feita.
E ainda bati com ele no chão para limpá-lo duns cupins secos e terra que estava pegada. Espetei o meu churrasco no meu espeto achado, finquei-o na borda do fogo. Vinha clareando o dia.
Por toda parte branqueava a geada. Um cabo baiano que viera acender o cigarro numa brasa, gritou, olhando para o chão:
- Olha o assado com o espeto, cadete Romualdo, que vai-se embora.
- Anda, seu cadete, que o assado vai à trote!
O churrasco, sim senhor, borrifado de salmoura, já chando na gordura, aí andando pelo chão.
Então rompeu o Sol. Foi quando se poude verificar a causa: o espeto era uma cobra!
Como estava dura, dura de frio, aguentara o trabalho de atravessar o churrasco e ser cravada ao lado do fogo. Depois o calor começou a assar a carne e aquecer o espeto, isto é, a cobra, que se foi reanimando, revivendo. E logo ela quentinha, tratou de escapar.
Com alarido e movimento, a cobra assutou-se, fez força e desfincou-se do churrasco, escondendo-se logo num buraco ali adinate.
Este caso foi muito falado naquele tempo.

 

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Título: Um Talho
Dimensões do Original:
46cm x 24cm (publicado)
Ano / meses:
1998 / outubro-novembro-dezembro
Técnica:
gouache
Texto/Observações:
Adaptação de texto e ilustrações Berega:

Creio que outra faca igual não apareça. Deu-me o compadre Mingote Pereira, infelizmente já falescido; Deus lhe fale n´alma!
Era - a faca - de têmpera muito dura, mas depois de agarrar o corte, admirável: podia-se atirar ao ar um fio de teia de aranha, que antes dela cair a faca cortava-o quantas vezes que quisesse tendo boa vista!
Um dia, na casa da sogra do dito meu compadre Mingote houve juntarola.
Corria bem a festa, quando apareceu uma travessa com grande como um galo uma bela galinha assada, de forno.
E como naquele tempo era de uso, um dos convidados, mais habilitado, tinha que trincar a ave. A sogra convidou o Mingote.
O meu compadre levantou-se, colocou na sua frente a galinha, e armado do garfo grande e do trinchante afiado, começou a trabalhar. Mas, por seguro, a galinha era velha, como a sogra do compadre, e dura e lisa como chifre!
O compadre Mingote, já vermelho, tremendo o nariz, lidava, lidava e não espetava!
A sogra, de lá da cabeçeira, resmungou: Oh! Homem! Nada?
O compadre respondeu: já vai! E firnmou o garfo a todo muque, como quem crava uma esaca, a pulso!
Mas a galinha aguentou a estocada; e conforme o garfo bateu-lhe no costado escorregou, e furou o prato e cravou-se na tábua da mesa e espirrou molho gordo, como chuva; a galinha saltou por diante, como uma bala, e derrubando copos, garrafas, compoteiras, bateu sobre o ombro da sogra do Mingote, ricocheteou para a parede, sobre o relógio, cujo maquinismo achatou; daí, para a janela, quebrando-lhe os caixilhos e caindo no pátio, derreou uma porca macau, matando-lhe três leitões; virou um gongá onde estava uma perua, no choco, afinal foi bater no tampo da pipa d´água, e aluiu!
Se fosse gente, era o caso de dizer-se: vá ser dura prá o inferno!
Imagine o alvoroto! Um criado trouxe novamente a galinha, não para ser comida, é claro, mas para ser vista, admirada, examinada.
Foi então que a sogra do Mingote censurou-o por  não haver servido de minha faca; e gabou-a. Duvidaram; então, para dar a todos uma pequena prova, ajeitei a galinha e a meio dela desgarreguei um golpe.
Que talho! Foi como uma manteiga: cortei ao meio a galinha, o prato, a mesa; atorei pelo joelho a perna do vizinho da esquerda, o pé da cadeira onde ele sentava-se, a tábua do assoalho e o barrote! O talho não foi adiante por falta de braço!
Que talho!

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